Nos últimos anos, o Brasil passou por uma transformação política significativa.
Há quem prefira viver em uma realidade paralela, construída por narrativas e afeto ideológico. No entanto, a realidade política do Brasil mudou — e rápido. Em apenas uma década, o movimento conservador saiu da margem para disputar o centro do poder. O que era quase invisível nos anos 2010 hoje representa cerca de 43% da opinião pública e pode, sem exagero, vencer um segundo turno presidencial.
O estopim foi a Lava Jato. Mais que uma operação policial, ela rompeu o monopólio moral da esquerda e revelou que o Estado protetor também podia ser um predador. A força-tarefa mostrou que a corrupção não era desvio, mas rotina, que, aliás, continua sendo.
Apesar de seus métodos questionáveis, apenas desnudou a verdade. Foi torpedeada pelas mesmas forças que desafiou. Quando atingiu o topo da pirâmide, o movimento que nasceu como clamor moral terminou degolado pela astúcia dos corruptos.
Segundo o historiador francês Marc Ferro, não há seguro contra a história. Ela deve ser reconhecida como uma ciência de rastros ao lidar com memória e esquecimento. Quando isso acontecer, muitos constatarão que usaram o sistema, a toga e a imprensa para pulverizar quem ousou desafiá-los. Não venceram pela razão — venceram pela impunidade, a velha e fiel aliada dos poderosos.
O STF desautorizou investigações, anulou provas, libertou réus e reescreveu a narrativa. Isso não foi apenas o fim de uma operação — foi a restauração do status quo, disfarçada de zelo jurídico. Desde então, o eleitorado se deslocou, cansado da retórica salvacionista e desconfiado das instituições.
A nova coalizão de Lula tende a não ser tão imensa quanto no final de 2022, agora que ele perdeu parte de seu encanto. Naquela época, diversos meios político, empresarial, jurídico, universitário e midiático lhe deram imenso suporte. O presidente governa mais por astúcia do que por esperança, e sua aprovação tem oscilado muito ultimamente. É um líder vulnerável num cenário onde o Congresso, especialmente o Senado, pende para a direita, a partir de 2027.
A mídia tradicional, outrora árbitra da narrativa, teve de ceder terreno às redes sociais, onde a esquerda perdeu a hegemonia. Os conservadores agora tomaram as ruas da esquerda. O Brasil entrou numa nova fase — menos ideológica, mais desconfiada e ferozmente polarizada.
Nas eleições gerais de 2026, pode emergir algo inédito: um cansaço com os dois polos que se digladiam. O país talvez rejeite tanto Lula quanto Bolsonaro, buscando uma figura que traduza pragmatismo, não paixão. Gilberto Kassab já percebeu que há espaço para um centro reformista, contanto que saiba falar a língua da economia real e da insegurança cotidiana.
O eleitor, mais calejado, deseja menos salvadores e mais gestores. Pode ser o início de uma terceira via autêntica — não fabricada, mas que emerge do esgotamento do confronto.
























