As águas cristalinas do Arquipélago dos Abrolhos, no litoral sul da Bahia, tornaram-se o cenário de uma transformação econômica e ambiental que atrai viajantes de todo o país. O que antes era restrito a uma temporada de pesca e veraneio deu lugar a um movimento impulsionado pela chegada massiva de baleias-jubarte, transformando vilas pesqueiras em polos de ecoturismo náutico.
Da resistência no mar aos negócios
Histórias como a do capitão Paulo Salomão ilustram bem essa guinada regional. Na década de 1980, quando o Parque Marinho dos Abrolhos foi criado e a pesca comercial na área foi proibida, ele precisou reinventar sua atuação profissional. Batizada inicialmente em tom de desafio, a primeira embarcação deu origem a uma frota dedicada ao transporte de mergulhadores e entusiastas da vida marinha.
Com o passar dos anos, o fluxo de visitantes sofreu uma reviravolta expressiva motivada pela presença dos cetáceos. “Há uns dez anos, o maior fluxo de pessoas passou a ser em julho e agosto. Hoje só agosto, que é o pico, ganha dos três meses de verão. Todo mundo vem pra ver as baleias”, relata o comandante.
A rota das baleias e o impacto financeiro
Considerado uma verdadeira maternidade para a espécie, o santuário ecológico baiano recebe animais que migram milhares de quilômetros desde a Antártica em busca de águas mornas para reprodução e cuidado com os filhotes. Essa jornada marinha não apenas encanta quem visita a costa brasileira, mas também injeta recursos financeiros fundamentais nos meses de inverno.
Para os moradores locais, a alteração no calendário turístico representou um fôlego inédito. “Muitas pessoas, que antes tinham outras profissões, hoje são marinheiros e estão trabalhando na área”, conta Paulo. O ganho financeiro estendeu-se para além dos meses quentes do ano. “Antes a gente só contava com o verão, era só uma temporada que a gente tinha. Com o aumento da população de baleias, a gente passou a contar com fluxo de pessoas no inverno também. E é um dinheiro a mais que circula no município”, ele acrescenta.
Recuperação da espécie e regras de proteção
O sucesso dessa atividade econômica caminha lado a lado com a recuperação da espécie, cuja população saltou de menos de dois mil animais no início dos anos 1990 para aproximadamente 35 mil registros recentes. O cenário atual é fruto direto da proibição da caça em 1987, da demarcação da área de preservação em Abrolhos e da atuação contínua de organizações ambientalistas.
O Instituto Baleia Jubarte desempenha um papel central nesse processo, contando com o patrocínio histórico da Petrobras. Para o diretor executivo da entidade, Eduardo Camargo, a atividade turística funciona como um mecanismo de conservação indispensável. “Agrega valor econômico à baleia viva”, resume, ressaltando a importância de equilibrar a subsistência humana e o respeito ao ciclo natural. “Não tem como falar, ‘agora as baleias vão passar, então ninguém vai pro mar nesses meses’. O que precisa é regular isso de uma forma que não seja prejudicial para elas, mas também não ignore que você tem pessoas vivendo ali. É uma forma de criar uma renda limpa, quando ela é bem feita”, ele defende.
Para garantir a integridade dos animais, novas normativas estabelecem distâncias mínimas de 100 metros, restrições de tempo de permanência e limites estritos no número de embarcações ao redor dos grupos. O monitoramento é reforçado por meio de parcerias municipais e capacitações. “A gente debate, apresenta as regras. Todos os anos, agrega pessoas novas, então sempre tem que voltar atrás e lembrar tudo de novo. Algumas localidades implantaram um selo de responsabilidade e fizeram um acordo de cooperação com o Instituto. Então, só ganha o selo de Amigo da Baleia quem faz a capacitação”, explica Eduardo Camargo.
Conscientização e encantamento
Além do retorno financeiro e da proteção institucional, o contato direto com a biodiversidade marinha gera mudanças comportamentais profundas nos visitantes. O impacto visual de avistar os saltos e comportamentos das jubartes desperta uma nova consciência ambiental nos turistas. “Ver as baleias é uma experiência que muda as pessoas. Faz, talvez, ela consumir menos plástico, separar melhor seu lixo… E todas essas coisas vão fazer diferença não só pras baleias, mas para todos nós”, acredita o diretor.
Relatos de viajantes confirmam a intensidade da vivência. A turista mineira Deise Gomes Valente planejou sua jornada após acompanhar reportagens sobre a região. “A matéria no jornal falava das baleias em Abrolhos e na hora eu pensei: ‘tenho que guardar esse nome, porque um dia eu vou lá'”, lembra. A expectativa deu lugar à emoção durante o passeio: “Quando a primeira baleia apareceu, na hora, o meu olho encheu de água. É uma experiência incrível, ainda mais porque a gente está vendo elas no seu habitat natural, não é como ir a um aquário, ou zoológico e ver os bichos presos”, compara.
A mesma sensação de deslumbramento é compartilhada por quem enfrentou longas horas de navegação. A paulista Karina Moraes recorda o momento marcante da viagem: “Nós vimos muitas no caminho, uma passou bem do nosso lado. Quando ela levantou a nadadeira, bem assim ó, lá no alto, foi sensorial!” relembra com brilho nos olhos.
Serviços ecossistêmicos e valor global
Com centros de visitação espalhados por diferentes pontos do litoral brasileiro e frentes de pesquisa científica, o Instituto Baleia Jubarte reforça que a conservação vai muito além do apelo estético ou turístico. O diretor de pesquisa Milton Marcondes aponta a função ecológica vital exercida pelos animais. “É importante conservar as baleias, não só porque elas são bonitas e geram renda com o turismo, mas porque elas têm um grande papel para o planeta como um todo. Quando elas se alimentam na Antártica e defecam aqui, elas estão jogando nutrientes na água, o que aumenta a produtividade de várias espécies, inclusive de peixes de pesqueiro”, ele exemplifica.
Levantamentos econômicos internacionais corroboram essa perspectiva. Estimativas conjuntas realizadas por organismos globais e entidades de preservação calculam que as baleias presentes no litoral brasileiro contribuem com cifras superiores a US$ 82 bilhões, englobando desde a ciclagem de nutrientes e a captura de carbono até a movimentação financeira gerada pelo turismo sustentável.
Com informações Agência Brasil























