Numa reflexão solene, muitas vezes encontro-me em mesas de botecos da periferia, acompanhado apenas pela sutileza de uma cerveja.
Essa apreciação da solidão, dentro de certos limites, me leva a revisitar a infância e a adolescência, períodos que se esvanecem na bruma do tempo, mas que armazenam memórias de uma fase efervescente e feliz, mesmo sem que eu percebesse isso.
Meu pano de fundo são os casarões coloniais, as imponentes igrejas barrocas, noites misteriosas, e os botequins onde o cheiro da cachaça dança no ar. Ouro Preto, com suas ruas íngremes, sempre oferece um amigo para cada oportunidade. Os incríveis anos 70 se entrelaçam com o meu imaginário, lembrando-me de performances marcantes, como a de Julian Beck e seu “Living Theatre”.
As esperadas férias de fim de ano, aos nove anos, passavam nas casas de minhas avós, em um bucólico lugar chamado Glaura, também conhecido como Casa Branca. Esse encantador espaço rural estava cercado por natureza exuberante, onde eu passava dias imerso em brincadeiras sem hora para acabar, fugindo para o bambual atrás da capela.
A visão exótica das garotas naquela época, a sutil diferença entre nós, me fazia lembrar o fruto da caramboleira do quintal de minha avó. Era uma nova descoberta a cada encarar o “trem” das mocinhas, despertando curiosidade e novos desafios.
Noite após noite, o céu de Glaura se iluminava com milhões de estrelas e pirilampos, cada momento se tornava mágico sob uma fraca luminosidade que mais lembrava lamparinas. Um episódio inesquecível foi quando vi um casal se esgueirando para trás da capela, confirmando o quão democrático era o ato profano naquele ambiente.
CRÔNICA PUBLICADA ORIGINALMENTE EM 2 DE FEVEREIRO DE 2021
Outro Artigo de: Fernando Silva, jornalista e colunista na DeFato Online.























