Sábado, 18 de julho de 2026

Trabalho escravo contemporâneo persiste no Brasil e carece de reformulação judicial

O estudo da UFMG aponta para uma preocupante continuidade do trabalho escravo contemporâneo no Brasil, onde apenas uma fração das violações dos direitos trabalhistas resulta em condenação judicial.

Trabalho escravo contemporâneo persiste no Brasil e carece de reformulação judicial
Foto: Freepik

No Brasil, o trabalho escravo contemporâneo continua sendo uma triste realidade, conforme revela estudo do núcleo da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). De 2000 a 2025, um total de 4.321 pessoas processadas por violar os direitos de trabalhadoras e trabalhadores resultou em apenas 191 condenações, representando apenas 4% dos casos.

No dia 28 de janeiro, Dia Nacional de Combate ao Trabalho Escravo, foram divulgados dados preocupantes. Dentre esses, 1.578 réus foram absolvidos (aproximadamente 37%), e apenas 4% dos processados tiveram condenações parciais. A Clínica de Trabalho Escravo e Tráfico de Pessoas da UFMG ressalta ainda que as ações na Justiça Federal levam, em média, 2.636 dias, o que equivale a mais de sete anos para serem concluídas.

No total, foram contabilizadas 19.947 vítimas desde o início do período em questão, sendo a maior parte homens (3.936) em comparação com 385 mulheres.

Os dados, extraídos do Jusbrasil, demonstram a dificuldade enfrentada pelas vítimas para comprovar sua situação. Especialistas observam que a legislação exige a comprovação de que os empregadores restringiram a liberdade de locomoção dos trabalhadores.

A proposta da clínica é criar um painel interativo acessível ao público, que permitirá a visualização de indicadores como a duração dos processos e os tipos de provas apresentadas.

Desafios no Judiciário

O juiz federal Carlos Borlido Haddad critica o Poder Judiciário pelos resultados insatisfatórios em ações relacionadas ao tráfico de pessoas. Ele aponta que, há uma década, a exploração sexual era o foco principal, mas esse quadro mudou. Para Haddad, a eficiência do sistema judiciário nos Estados Unidos, onde a tramitação de casos é mais rápida, contrasta com a realidade brasileira.

Um caso notório que ainda segue foi o da montadora Volkswagen, que enfrentou uma ação civil pública após a condenação de funcionários que viveram em condições análogas à escravidão durante a ditadura militar. As vítimas pedem R$ 165 milhões em danos morais coletivos.

Aspectos da Desumanização

Casos recentes mostram a desumanização enfrentada pelas vítimas. Um exemplo é de um homem idoso, que recebeu uma indenização de R$ 350 mil, mas carecia de apoio para administrar esses recursos, pois seus familiares eram os responsáveis por sua condição de escravidão.

Além disso, o trabalho análogo à escravidão é caracterizado por condições precárias de trabalho, conforme evidenciado por um caso na região do Pará, onde os trabalhadores enfrentavam alojamentos inseguros e falta de instalações sanitárias. O réu foi considerado inocente sob a justificativa de que as condições eram adequadas à ruralidade local.

Há também a questão dos débitos que geram servidão, prática reconhecida como escravidão contemporânea no Brasil. A legislação atual configura como tal qualquer atividade forçada em condições degradantes, que restrinja a liberdade dos trabalhadores.

Como Denunciar

A Comissão Pastoral da Terra (CPT) oferece a campanha “De Olho Aberto para não Virar Escravo” que disponibiliza vídeos e orientações sobre setores econômicos em que essas práticas são comuns. O principal canal para denúncias é o Sistema Ipê, que assegura anonimato ao denunciante. Além disso, o aplicativo Laudelina, que pode ser usado sem internet de alta velocidade, é uma ferramenta adicional para denúncias de trabalho escravo.

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