Com o avanço da tecnologia e da inteligência artificial, os golpes cibernéticos têm se tornado cada vez mais sofisticados no Brasil, afetando usuários comuns e grandes corporações. A combinação entre a criatividade dos criminosos, a fragilidade na legislação e a falta de preparo técnico contribuem para o crescimento deste tipo de crime que representa um dos principais riscos no ambiente digital.
De acordo com o especialista em Tecnologia da Informação, Thiago Pereira, da empresa Dr. Redes, o enfrentamento aos crimes digitais ainda enfrenta barreiras estruturais. “Hoje, em Minas Gerais, existe apenas uma delegacia especializada em crimes digitais, localizada em Belo Horizonte. Além disso, os criminosos são frequentemente enquadrados apenas por estelionato, que possui uma pena considerada leve, fazendo com que o crime continue compensando”, explica.
Golpes mais comuns e o uso da inteligência artificial
Entre os golpes mais recorrentes, está o golpe do boleto falso, que se aproveita da rotina de pagamentos das pessoas e empresas. “Os fraudadores utilizam dados públicos e situações reais, como a renovação de domínios ou tributos, para enviar boletos quase idênticos aos originais. Na pressa, muitas pessoas pagam sem verificar o beneficiário”, alerta Thiago.
Com a chegada da inteligência artificial, o nível de sofisticação aumentou significativamente. O consultor cita casos em que criminosos clonam vozes, imagens e até realizam reuniões virtuais falsas. “Houve um caso em que um diretor financeiro transferiu cerca de R$ 25 milhões após uma reunião online com supostos sócios. Depois, descobriu-se que toda a reunião havia sido feita com avatares gerados por inteligência artificial”, relata.
Além disso, golpes por e-mail, ligações telefônicas e mensagens instantâneas continuam fazendo vítimas. Técnicas como o e-mail spoofing permitem que mensagens aparentem ter sido enviadas por empresas ou pessoas conhecidas, dificultando a identificação da fraude.
Usuários vulneráveis e o papel da educação digital
Thiago destaca que muitas fraudes exploram a vulnerabilidade dos usuários, especialmente aqueles com menos familiaridade com tecnologia. “Existe um tipo de analfabetismo tecnológico, especialmente quando falamos de segurança digital. Muitas fraudes nascem da vulnerabilidade do próprio usuário”, explica.
O uso de senhas fracas, a repetição da mesma senha em diferentes plataformas e a ausência da autenticação em dois fatores são falhas comuns. “Uma senha forte, com pelo menos 12 caracteres, e o uso da autenticação em dois fatores reduzem drasticamente o risco de invasões”, orienta.
Segundo o especialista, menos de 30% dos usuários utilizam esse recurso de segurança, o que facilita golpes como a clonagem de WhatsApp e invasões de redes sociais. “Muitas vezes, a pessoa subestima o risco e só passa a se preocupar depois de já ter sido vítima do golpe”, afirma.
Empresas também estão na mira
No ambiente corporativo, os riscos são ainda maiores. Além de prejuízos financeiros, ataques digitais podem comprometer dados sensíveis e até a continuidade de um negócio. “Hoje, um ataque pode criptografar todos os dados de uma empresa e exigir resgate em criptomoedas. Em outros casos, o vazamento de informações pode gerar processos e destruir a reputação da empresa”, alerta Thiago.
Ele ressalta que investir em segurança digital não é um custo, mas sim uma forma de prevenção. “Firewall, antivírus, políticas de acesso, backup em nuvem e treinamento dos funcionários são fundamentais. A segurança da informação envolve tecnologia e comportamento humano”, destaca.
Thiago também lembra que incidentes como incêndios, enchentes ou roubos de equipamentos podem causar perdas irreversíveis quando não há backup adequado. “A empresa precisa se preocupar com a continuidade do negócio. Muitas só buscam ajuda depois que o prejuízo já aconteceu”, diz.
Prevenção como principal ferramenta
Para Thiago Pereira, enquanto o poder público enfrenta dificuldades para combater os crimes digitais, a principal arma da sociedade é a informação. “A educação digital é o caminho. As pessoas precisam entender que o golpe existe e que, mais cedo ou mais tarde, ele pode bater à porta”, afirma.
A recomendação é desconfiar de promessas fáceis, evitar agir por impulso e sempre conferir dados antes de realizar pagamentos ou fornecer informações pessoais. “A pressa é inimiga da segurança. Os golpistas se aproveitam justamente do imediatismo e da distração”, conclui.




























