Sábado, 31 de outubro de 2026

Trinta anos após queda de avião em São Paulo, familiares relembram dor

Desastre aéreo que marcou a história da aviação nacional resultou na criação da primeira entidade de apoio a parentes de vítimas no país
"Luto é permanente", diz viúva 30 anos após acidente com Fokker da TAM

Há três décadas, Sandra Assali acompanhou o marido, o médico cardiologista José Rahal Abu Assali, até o Aeroporto de Congonhas, na zona sul da capital paulista. Ele embarcaria em um voo com destino ao Rio de Janeiro para participar de um congresso como palestrante, com retorno programado para o mesmo dia.

A transformação repentina na rotina e os desdobramentos legais No entanto, o profissional nunca chegou ao destino. Conforme apontou o relatório final do Centro de Investigação e Prevenção de Acidentes Aeronáuticos (Cenipa), apenas 24 segundos após a decolagem, a aeronave modelo Fokker 100 colidiu contra três prédios e caiu sobre residências na Rua Luís Orsini de Castro, situada a aproximadamente dois quilômetros do terminal. O impacto gerou um incêndio de grandes proporções que resultou no falecimento de todas as 96 pessoas a bordo, além de três moradores que estavam em solo.

O trágico evento ocorreu por volta das 8h30 do dia 31 de outubro de 1996. Na época, Sandra criava dois filhos pequenos e guarda viva a memória daquele momento. “O luto é permanente”, diz ela à reportagem da Agência Brasil.

“A perda de alguém sempre marca. Você lembra o momento em que você recebeu essa notícia. Imagine então para um familiar. Para mim, a memória que eu tenho foi de ter deixado o meu marido no aeroporto e, em questão de 40 minutos, já tive a confirmação da perda dele.”

A fundação da entidade e as transformações na aviação A partir daquele momento, a rotina de dezenas de famílias sofreu uma reviravolta profunda. Na ausência de suporte adequado por parte da companhia aérea, Sandra e outros parentes uniram forças para fundar a Associação Brasileira de Parentes e Amigos de Vítimas de Acidentes Aéreos (Abrapavaa), da qual ela atualmente assume a presidência.

“A vida dá, literalmente, uma guinada. E você se vê pai e mãe, algo que não era planejado. Aliás, nada daquilo era planejado. Pelo contrário, os planos eram muitos outros. E aí você ter que deixar tudo para lá porque agora há algo novo na sua vida. Receber essa informação, com esse impacto, e ter que trabalhar essa informação em você é muito complicado, para além do fato de que você está impactada, em choque, em sofrimento. Foi muito complexo”, disse.

Antes de 1996, as empresas de aviação não tinham obrigação legal de prestar assistência imediata aos entes queridos dos passageiros. Com a atuação da Abrapavaa, esse cenário mudou drasticamente, estabelecendo novos parâmetros de amparo humanitário e reparações jurídicas no Brasil.

“Há um antes e um depois desse acidente. Mudou-se a forma de investigar [um acidente aéreo], mudou-se a forma das indenizações, mudou também a forma de se trabalhar com a reparação das famílias. Mudou até a assistência para familiares de vítimas, que não existia e passou a existir com a Abrapavaa. A associação trouxe, principalmente, uma forma de lidar com os familiares das vítimas. Esse foi um dos trabalhos que a gente conquistou”, destacou a presidente.

Detalhes técnicos da falha mecânica O acidente ocorreu devido a uma abertura acidental do reversor da turbina direita — o dispositivo que atua como freio aerodinâmico — durante a fase de decolagem. O acionamento em pleno voo gerou o efeito oposto ao necessário, freando o avião no momento em que a potência era indispensável para manter a sustentação. O comandante e o copiloto não possuíam treinamento para essa situação específica, cuja probabilidade de ocorrência era estimada em uma em 100 bilhões.

Desestabilizado, o aparelho inclinou-se para a direita antes de atingir as edificações urbanas. Após as investigações oficiais, nenhum indivíduo foi responsabilizado judicialmente pelo episódio.

Em posicionamento oficial enviado à Agência Brasil, a Latam Airlines Brasil declarou solidariedade a todos os atingidos pela tragédia e ressaltou que buscou amparar os familiares desde o primeiro instante, embora reconheça que nenhuma medida apaga a dor das perdas.

“A empresa informa que as causas do acidente foram esclarecidas em relatório do Centro de Investigação e Prevenção de Acidentes Aeronáuticos (Cenipa), publicado em 1997. O documento incluiu recomendações necessárias sobre mudanças em procedimentos adotados pela companhia na época, além de solicitar modificações técnicas à fabricante da aeronave, cujo modelo deixou a frota em 2008”, escreveu a aérea.

Com informações Agência Brasil

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