Domingo, 01 de novembro de 2026

Museu Nacional recebe indumentária de Mãe Bernadete em acervo

Peça da líder quilombola simboliza a resistência e a ancestralidade de um povo que busca ocupar espaços de memória no Brasil
Indumentária de Mãe Bernadete é doada ao Museu Nacional

Legado quilombola preservado no Rio de Janeiro

O acervo do Museu Nacional, localizado no Rio de Janeiro, conta agora com uma peça de uso pessoal da ialorixá Mãe Bernadete, uma das lideranças mais emblemáticas do Quilombo Pitanga de Palmares, em Simões Filho, na Bahia. A doação da indumentária, composta por um vestido branco com detalhes em azul, foi formalizada pelo filho da líder, o professor Jurandy Pacífico dos Santos, durante a terceira edição do evento “Diálogos da Reconstrução”.

Significado da doação para a cultura afro-brasileira

A entrega da peça ocorreu em um contexto de valorização das narrativas tradicionais. Segundo a instituição, a iniciativa “integra a proposta de reconhecer e preservar as memórias, os saberes e as práticas das comunidades quilombolas como patrimônios vivos, ampliando as possibilidades de representação dessas histórias na instituição”.

Jurandy Pacífico dos Santos, que também é gestor cultural, ressaltou que a peça vai além de seu valor material. Em entrevista, ele enfatizou o peso histórico e espiritual do gesto:

“A doação da indumentária, não é apenas a doação de um objeto. Aquilo não se trata de um objeto. Se trata além disso. Se trata de ancestralidade. Se trata de uma mulher que dedicou 72 anos de sua vida para a defesa dos Direitos Humanos, dos quilombos e do território. Aquela indumentária para a gente de comunidade quilombola é a questão de manter a memória de Mãe Bernadete viva”, afirmou.

Para o filho da ialorixá, o ato representa um passo importante contra o apagamento histórico:

“Sempre foi não reconhecido pelo sistema. Isso é um reconhecimento. É o resgate da memória, a permanência dessa memória e o empoderamento desse povo”, concluiu.

Impacto nas futuras gerações

Em um registro enviado à reportagem, Jurandy destacou que o gesto permite que a história de resistência do Quilombo Pitanga de Palmares ultrapasse as fronteiras territoriais baianas.

“Ao integrar o acervo do Museu Nacional, a indumentária passa a contribuir para que futuras gerações, pesquisadores e visitantes conheçam não apenas a trajetória de Mãe Bernadete, mas também a história de resistência dos povos quilombolas e das comunidades tradicionais.”

Para ele, a presença da vestimenta no museu é uma forma de manter a luta viva:

“Estamos compartilhando com o Brasil e com o mundo um pedaço da nossa história, da nossa ancestralidade e da luta de um povo que continua resistindo. A memória de Mãe Bernadete permanece viva, porque seu legado continua!”, completou.

Rio de Janeiro – Assinatura do termo de doação da indumentária de Mãe Bernadete pelo seu filho Jurandy Pacífico dos Santos – Felipe Cohen/Projeto Museu Nacional Vive

Diálogos sobre representatividade

O evento que marcou a doação buscou promover o intercâmbio entre o museu e lideranças quilombolas de todo o país. O objetivo é construir uma instituição mais plural e democrática. Thais Mayumi Pinheiro, diretora de Integração Museu e Sociedade, pontuou que o foco é “entender como os produtores e detentores de conhecimentos tradicionais querem se ver representados no Museu Nacional e, assim, reforçar o compromisso da instituição com a construção de um museu plural e democrático”.

Já Caio Gonçalves Dias, gestor das novas exposições do Projeto Museu Nacional Vive, reforçou que o museu deve atuar como um mediador respeitoso:

“O papel do museu e o compromisso do PMNV é criar condições para que esses saberes sejam reconhecidos, respeitados e apresentados como as próprias comunidades entendem que devem ser”, definiu.

Mãe Bernadete foi assassinada em agosto de 2023, em um crime que chocou o país e trouxe à tona a vulnerabilidade de defensores de direitos humanos e territórios quilombolas. A inclusão de sua indumentária no acervo nacional reafirma a importância de sua trajetória e o papel da memória na luta contra a violência e pela justiça social.

Rio de Janeiro – 3ª edição do Diálogos da Reconstrução pelo Museu Nacional – Felipe Cohen/Projeto Museu Nacional Vive

Com informações Agência Brasil

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