Quinta, 14 de maio de 2026

Críticas ao uso de recursos da reparação do Rio Doce em rodovias em Minas

Críticas ao uso de recursos da reparação do Rio Doce em rodovias em Minas
Foto: Reprodução/TV Assembleia

A destinação de recursos do Novo Acordo de Reparação do Rio Doce para obras em rodovias estaduais e federais tem gerado críticas entre moradores de Mariana e Ouro Preto, na Região Central de Minas Gerais. O principal questionamento envolve o uso de valores associados ao rompimento da Barragem do Fundão, ocorrido em 2015, em intervenções na BR-356 e nas MG-262 e MG-329.

O acordo de repactuação prevê R$170 bilhões em medidas relacionadas à reparação dos danos causados pelo desastre. Desse total, cerca de R$2 bilhões devem ser aplicados em obras viárias, incluindo a duplicação de 78 quilômetros da BR-356 entre Nova Lima e Mariana. Para moradores e representantes de atingidos, a decisão desloca parte dos recursos de uma reparação social e ambiental para uma obra que pode favorecer o escoamento de minério na região.

A duplicação faz parte do contrato do lote Ouro Preto-Mariana, vencido pelo consórcio Rota da Liberdade. O acordo prevê investimentos de aproximadamente R$5 bilhões em operação, manutenção e melhorias em uma malha de 190 quilômetros, entre Nova Lima e Rio Casca. O contrato tem duração de 30 anos, e as obras de duplicação da BR-356 estão previstas entre 2029 e 2032, ao custo estimado de R$1,7 bilhão.

As críticas não se limitam à origem do dinheiro. Moradores também cobram informações sobre os impactos das obras, principalmente em áreas que podem passar por desapropriação. Em Mariana e Ouro Preto, há famílias que relatam incerteza sobre imóveis, indenizações e permanência nos territórios onde vivem há décadas.

Comunidades quilombolas também pedem que a escuta sobre o projeto considere procedimentos específicos para esses territórios. A cobrança é por consulta, acesso a mapas das áreas afetadas e garantias antes do avanço de qualquer remoção. Para os moradores, a discussão sobre segurança viária não pode ignorar o direito à moradia.

O governo estadual defende que a duplicação deve reduzir acidentes, diminuir o tempo de deslocamento e melhorar a ligação entre Belo Horizonte, Ouro Preto, Mariana e outras cidades da região. O projeto também prevê vias marginais, terceiras faixas, acostamentos, correções de curvas, barreiras de concreto, áreas de escape e ponto de parada para descanso.

Ainda assim, atingidos pelo rompimento da Barragem do Fundão afirmam que a prioridade deveria ser o atendimento direto às comunidades afetadas. Entre as demandas estão indenizações, reassentamentos, reparação ambiental, acompanhamento de saúde e respostas sobre danos que permanecem quase 11 anos depois do desastre.

Outro ponto de preocupação é a cobrança de pedágio no trecho concedido. Segundo informações apresentadas sobre o projeto, a tarifa inicial prevista é de R$5,80 no primeiro ano, com reajuste anual pelo IPCA. Para moradores da região, a combinação entre uso de verba de reparação, desapropriações e cobrança futura reforça a necessidade de transparência sobre quem será beneficiado pelas obras.

As intervenções ainda dependem de etapas de licenciamento ambiental e elaboração de projetos executivos. A previsão é que a fase de obras comece no terceiro ano do contrato, em 2029. Até lá, comunidades cobram participação nas decisões, definição clara sobre indenizações e garantia de que os recursos da reparação não sejam usados sem retorno concreto para os atingidos.

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