Sábado, 12 de setembro de 2026

Indígenas da Amazônia catalogam espécies para resguardar biodiversidade

Uma iniciativa de colaboração entre indígenas e cientistas visa catalogar as espécies da Terra Indígena Panará, na Amazônia, buscando proteger a biodiversidade ameaçada por atividades ilegais. A pesquisa integra saberes ancestrais e tecnológicos para um inventário amplo da fauna e flora local.

Indígenas da Amazônia catalogam espécies para resguardar biodiversidade
© André Villas Bôas/ISA

Umainiciativa inovadora une saber ancestral indígena à ciência acadêmica, desenvolvendo um inventário das espécies da Terra Indígena (TI) Panará, na Amazônia. Já foram registrados quase 15 mil indivíduos da fauna e flora em 500 mil hectares, na divisa do Pará com Mato Grosso.

O projeto é uma ação promovida pela Conservação Internacional (CI-Brasil) em parceria com a Rede Xingu+, a Associação Indígena Iakiô, universidades públicas e diversas organizações sociais. Essa iniciativa integra uma estratégia para conservar a biodiversidade da região, que vem sendo ameaçada pelo garimpo ilegal e outras atividades irregulares.

Pesquisadores indígenas e acadêmicos colaboram em trilhas pelo território para coleta de imagens e amostras de espécies, incluindo água do Rio Rriri, um afluente do Rio Xingu que atravessa a TI, além de incluir dados no inventário.

“Foi muito bom trabalhar junto com pesquisadores não indígenas. Um ensinou ao outro”, afirma o pesquisador Kiarysy Kaiabi Panará, conhecido como Cutia.

Segundo a diretora do programa Povos Indígenas e Comunidades Locais da CI-Brasil, Renata Pinheiro, enquanto os acadêmicos trazem conhecimento tecnológico sobre as ferramentas de catalogação, os pesquisadores indígenas dominam o conhecimento sobre o território.

“Os Panará sabem ler a floresta de um jeito que nenhum instrumento científico consegue substituir. Eles conhecem a alimentação de cada animal, como se movimenta, e esse conhecimento alimenta diretamente a ciência que construímos juntos”, ressalta.

TECNOLOGIA

Para a coleta de dados, os pesquisadores indígenas foram capacitados no uso de tecnologias como GPS, aplicativos de catalogação, e a instalação de câmeras trap, que são ativadas por movimento ou calor emitido pelos animais.

A pesquisadora Pentê Panará relata que o trabalho foi além da tecnologia; possibilitou conhecer espécies que são difíceis de avistar sem ajuda das câmeras.

“Quando as câmeras capturaram os bichos de pelo, conseguimos identificar mais do que conhecíamos. Fiquei muito feliz em conhecer essa parte da pesquisa com a tecnologia”, comenta.

Pentê destaca a relevância da participação das mulheres no projeto que desenvolveu o estudo.

“As outras mulheres da aldeia sempre perguntavam sobre o trabalho. Acredito que muitas queiram participar”, afirma.

DESCOBERTA

Entre as 602 espécies catalogadas, 27 estão criticamente em perigo de extinção. Uma árvore, conhecida como pelos Panará, está sendo estudada como uma possível nova descoberta.

Embora já seja uma planta conhecida pelo povo, a coleta ainda não está completa e a análise deverá ser feita durante a estação da floração.

Renata explica que o trabalho foi interrompido devido à falta de recursos para novas expedições, mas mantém-se a expectativa de retomar o programa para finalizar o inventário.

Pentê afirma que há muito mais a ser revelado: “Durante as pesquisas, sempre encontramos rastros de outros bichos. Acreditamos que há muito mais a descobrir.”

Após o inventário, os resultados serão analisados pelos pesquisadores indígenas e disponibilizados na plataforma do Sistema de Informação sobre a Biodiversidade Brasileira (SIBBr), que reúne dados sobre espécies e coleções biológicas.

Um protocolo foi desenvolvido para que as publicações respeitem e incluam a visão dos Panará, assegurando que seu conhecimento seja reconhecido e respeitado.

“Estabelecemos um protocolo para garantir que os Panará entendam e contribuam com as informações antes de serem publicadas”, finaliza Renata.

Facebook
Twitter
LinkedIn
WhatsApp
Email

Leia também...

Últimas notícias