Sábado, 12 de setembro de 2026

Impactos das Mudanças Climáticas na Produção de Comunidades Quilombolas

As comunidades quilombolas enfrentam desafios crescentes devido às mudanças climáticas, que impactam diretamente sua produção agrícola e, consequentemente, sua cultura e identidade.

Impactos das Mudanças Climáticas na Produção de Comunidades Quilombolas
© Lula Marques/Agência Brasil.

A comunidade rural quilombola de Nova Esperança, localizada em Baraúna (RN), enfrenta um cenário desolador em relação à sua produção agrícola. A agricultora Sueli Bessa, de 39 anos, relembra que, durante a infância, o aroma da goiaba dominava a região. Contudo, os períodos de seca tornaram-se cada vez mais constantes, resultando em uma drástica diminuição na produção dessa fruta.

Sueli é uma das líderes presentes no encontro nacional das mulheres quilombolas, realizado no Gama (DF), que discute a justiça climática como tema central. O presidente Lula participou do evento, ouvindo as preocupações das mulheres sobre as mudanças climáticas.

Além das goiabas, outras frutas e hortaliças, essenciais para as 70 famílias da comunidade, também são afetadas pelos extremos climáticos, alternando entre secas severas e chuvas torrenciais.

Devido a essas adversidades, muitos na comunidade foram forçados a abandonar a agricultura familiar, buscando trabalho nas indústrias urbanas, distantes mais de 20 quilômetros. O acesso é complicado, já que a própria comunidade, que não possui código postal, enfrenta dificuldades com as estradas não asfaltadas. “Quando chove forte lá, é horrível”, relembra Sueli, que também enfrenta problemas com o abastecimento de água, dependendo de um poço artesiano que cara a lidar com a escassez.

Sueli vende geleias e compotas, e sonha em concluir o ensino médio para se inscrever em um curso superior, com o objetivo de auxiliar ainda mais sua comunidade. Sua filha, Suelene Ribeiro, de 21 anos, compartilha dessa visão e destaca a importância dos coletivos de mulheres e jovens para lidar com os desafios climáticos.

No contexto nacional, a Coordenação Nacional de Articulação das Comunidades Negras Rurais Quilombolas (Conaq) lançou o livro “Vozes Quilombolas: Mulheres em Defesa do Clima“, com a participação da agrônoma Fran Paula, que abordou os impactos das grandes empresas na vida dessas comunidades e o aumento da vulnerabilidade das mulheres.

Ela argumenta que as mulheres estão na linha de frente da luta por justiça climática, sendo as primeiras a afetadas e as que permanecem mais tempo nos territórios. As mulheres, que realizam ações de conservação, são fundamentais na vigilância ambiental, detectando mudanças significativas no ecossistema local.

A pesquisadora aponta que os grandes empreendimentos, como usinas de energia eólica, têm mudado drasticamente o modo de vida e produção nas comunidades, além de causar contaminação e afetar severamente a saúde e a identidade cultural dos indivíduos.

Um dos símbolos de resistência é a plantação do marmelo na comunidade de Mesquita, em Cidade Ocidental (GO). A expectativa é que o território seja demarcado ainda este ano. O culto ao marmelo é mais que apenas uma atividade econômica; é parte central da identidade cultural da população.

Na comunidade Divino Espírito Santo, em São Mateus (ES), a situação é semelhante. O cultivo de mandioca, essencial para a produção do tradicional beiju, foi reduzido pelas condições climáticas adversas. Denise Penha, agricultora local, ressalta a importância da preservação da mandioca, diante dos desafios impostos por agrotóxicos utilizados por fazendeiros nas redondezas.

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