Terça, 03 de novembro de 2026

Temporada de baleias-jubarte chega ao fim com queda drástica no número de filhotes

Especialistas apontam o aquecimento global e a escassez de alimento na Antártida como principais causas para a baixa reprodutiva.
Temporada das baleias-jubarte termina com menos filhotes

A cada ano, as baleias-jubarte percorrem uma jornada monumental de quase 4 mil quilômetros, saindo das geladas águas da Antártida em direção ao arquipélago dos Abrolhos, no litoral sul da Bahia. Essa rota milenar serve para o acasalamento e o nascimento de novos indivíduos na principal “maternidade” natural da espécie no país. Contudo, o ciclo reprodutivo recente registrou uma baixa alarmante de nascimentos, acendendo um alerta na comunidade científica.

Impacto direto das mudanças climáticas na reprodução

O levantamento conduzido pelo Instituto Baleia Jubarte revelou que, até o mês de setembro, a proporção de recém-nascidos entre os animais avistados não passou de 3,35%. O índice fica muito abaixo da média histórica de 9,98% contabilizada desde 2014. Para se ter uma ideia do contraste, a taxa bruta de natalidade atingiu 10,7% no ano passado e alcançou um recorde de 16,69% em 2024.

Segundo Milton Marcondes, diretor de pesquisas do instituto, a alteração no clima global interfere de maneira direta na quantidade de krill na Antártida. Esses pequenos crustáceos marinhos representam o alimento praticamente exclusivo das jubartes antes da longa viagem migratória.

“Baleias que não se alimentam direito, quando vêm acasalar, não têm tanta fertilidade, ou a fêmea em gestação corre o risco de perder o filhote”, acrescenta Marcondes.

Como as fêmeas não se alimentam durante o trajeto, a formação de uma reserva robusta de gordura torna-se fundamental, especialmente para aquelas que precisarão amamentar após o parto.

Caravelas (BA), Pesquisadores fazem coleta de amostras para pesquisas biológicas das baleias – Tânia Rêgo/Agência Brasil

Metodologia de monitoramento e alcance global do fenômeno

Para chegar a esses números consolidados, os pesquisadores realizam observações diárias a bordo de uma embarcação que transporta celulose entre Belmonte, na Bahia, e Barra do Riacho, no Espírito Santo. O trajeto constante garante estatísticas confiáveis ao longo dos anos. Além disso, expedições científicas a Abrolhos contataram 431 indivíduos, incluindo apenas 42 filhotes, confirmando a tendência de baixa.

As análises não se limitam ao Brasil. O fenômeno reflete uma situação observada em outras regiões do planeta, afetando populações que frequentam o Equador e a costa australiana.

“Não aconteceu só no Brasil. Aconteceu também com as jubartes do Pacífico, que frequentam a costa do Equador, e aconteceu com as jubartes da costa oeste e da costa leste da Austrália…”, contextualiza o pesquisador.

Caravelas – Milton Marcondes (em pé), diretor de Pesquisa do Instituto Baleia Jubarte e pesquisadores do projeto – Tânia Rêgo/Agência Brasil

Encurtamento da temporada e comportamento dos jovens

A escassez de novos espécimes provocou uma alteração no calendário migratório, fazendo com que a temporada chegasse ao fim antes do previsto. Tradicionalmente presentes a partir de junho, com pico entre julho e outubro, os animais costumam deixar o território brasileiro em novembro.

“As baleias que vieram acasalar, acasalaram e foram embora. Quem segura a temporada até mais tarde são os filhotes, porque a mãe tem que esperar ele crescer, desenvolver a musculatura e uma camada de gordura que permita a ele fazer a migração até as áreas de alimentação e proteja do frio da água de lá [Antártida]. Com menos filhotes, a temporada é mais curta”, explica Milton Marcondes.

Caravelas (BA) – Eduardo Camargo, diretor executivo na Instituto Baleia Jubarte. A espécie é avistada no Parque Nacional Marinho dos Abrolhos, no litoral sul da Bahia. Elas migram anualmente das áreas de alimentação polar para se reproduzir nos trópicos – Tânia Rêgo/Agência Brasil

Outro reflexo atípico apareceu no perfil dos encalhes registrados ao longo da costa. Historicamente, os filhotes concentram a maioria das ocorrências por serem mais vulneráveis e dependerem inteiramente da mãe. Com poucos filhotes nascendo, os animais juvenis passaram a se destacar nas estatísticas de mortalidade.

“Em um ano ruim, um adulto pode saber onde buscar comida, como capturá-la e ter ainda uma reserva de gordura. Os juvenis têm menor capacidade de estocar gordura e também são menos experientes.”

Essa dinâmica também deslocou a geografia dos registros de encalhes para estados como São Paulo e Santa Catarina, locais onde os jovens costumam interromper a viagem por ainda não estarem aptos ao acasalamento, diferentemente de Espírito Santo e Bahia, que lideram em anos comuns. Embora o volume geral de encalhes esteja menor em 2024 — 59 casos contra 78 no ano anterior —, a continuidade da crise alimentar polar pode gerar impactos cumulativos preocupantes para o futuro da espécie.

“Este ano, nós não tivemos pico de encalhe. Pelo contrário, os números são relativamente baixos. Mas nós estamos tendo mais casos envolvendo juvenis no Sul. Se continuar o problema com disponibilidade de krill, pode ser que no ano que vem a gente tenha uma mortalidade atípica, porque geralmente é cumulativo”, alerta Marcondes.

Com informações Agência Brasil

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