Barbacena encerrou nesta segunda-feira (25) um capítulo triste de sua história. Com a efetivação da transferência dos últimos 14 pacientes remanescentes do extinto hospital-colônia para um lar terapêutico no município, o Centro Hospitalar Psiquiátrico seguirá sendo referência para crises agudas e atendimentos ambulatoriais, como se consolidou nas últimas décadas, dentro dos critérios da Rede de Atenção Psicossocial (RAPS), preconizados pelo Sistema Único de Saúde (SUS).
O marco histórico contou com a presença do secretário de Estado de Saúde Fábio Baccheretti, do prefeito de Barbacena, Carlos Augusto Soares do Nascimento, da presidente da Fundação Hospitalar do Estado de Minas Gerais (Fhemig), Renata Dias, ex-pacientes, e várias autoridades da região e do Estado, além de convidados.
No final de semana, foi efetivada a transferência dos últimos 14 pacientes remanescentes do período em que Barbacena abrigou um dos maiores hospitais-colônia do país. A partir de agora, eles passam a viver em uma residência terapêutica preparada especialmente para recebê-los, com acompanhamento de equipe especializada, cuidado humanizado e garantia de dignidade.
Durante o evento, aconteceu o fechamento simbólico da porta do Pavilhão Antônio Carlos com cadeado, gesto que representa o compromisso de Minas Gerais com a memória, a dignidade humana e o cuidado em liberdade.
“Este é o ponto final de uma história construída por diversos personagens. São 25 anos desde a Lei da Reforma Psiquiátrica e, até chegarmos aqui, foi muita luta. Vários aqui presentes estiveram conosco nesse caminho. A história de milhares de pessoas que foram jogadas e morreram nos pavilhões se encerra hoje, com a saída dos últimos 14 pacientes. É talvez o momento mais emocionante nos anos que estive à frente da Secretaria, um legado do qual me orgulho com vocês”, lembrou o secretário de Estado de Saúde, Fábio Baccheretti.
Os profissionais que se dedicaram a esses pacientes nos últimos anos foram lembrados pela presidente da Fhemig, Renata Dias, e pelo atual diretor do Complexo Hospitalar de Barbacena, Claudinei Emídio Campos. “Mesmo com toda a emoção que estamos vivendo aqui, não posso deixar de agradecer aos nossos servidores e a todos que fizeram esse momento acontecer. Não tem como ouvir essas histórias e não imaginar o quanto o caminho foi difícil para todos”, disse a presidente. “Estamos ressignificando uma história rumo à liberdade, é um fato inesquecível”, completou Claudinei.
Histórias por trás dos números
Mais do que uma mudança de endereço, o ato simboliza o fim de práticas baseadas no isolamento, na perda de vínculos e na exclusão social. Os moradores viveram, em média, 49 anos internados. A idade média atual é de 73 anos, e três deles chegaram à instituição antes de completar 15 anos.
Muitos foram internados em uma época em que situações de abandono familiar, preconceito, sofrimento psíquico leve ou comportamentos considerados inadequados pela sociedade podiam levar uma pessoa ao confinamento.
Parte dessas histórias permanece sem registro completo, mas os números conhecidos revelam a dimensão da tragédia. Entre 1942 e 2020, 40 mil pessoas passaram pela instituição, cerca de 24 mil morreram e, em determinado momento, o local chegou a reunir 3.500 pacientes simultaneamente.
“Quando era estudante, visitei aqui e isso definiu minha carreira, com a missão de defender a luta antimanicomial. Que essas pessoas tenham um final de vida digno, é nosso dever defendê-los, reparar esse passado”, afirmou a presidente do Conselho Estadual de Saúde, Lourdes Machado.
Marco histórico
Inaugurado em 1903 como Sanatório de Barbacena, voltado inicialmente ao tratamento de tuberculose, o espaço passou a ser conhecido, em 1911, como Hospital-Colônia, o primeiro hospital psiquiátrico público de Minas Gerais. Ao longo do século XX, tornou-se símbolo de um modelo manicomial marcado por superlotação, abandono e violações de direitos.
A história de Barbacena ganhou repercussão nacional a partir de registros jornalísticos, fotográficos e documentais que revelaram o que acontecia dentro dos muros da instituição. Hoje, parte dessa memória está preservada no Museu da Loucura, que registra um passado que não pode ser esquecido e jamais deve se repetir.
Cuidado em liberdade
Desde 2019, a SES-MG conduz o processo de desinstitucionalização de usuários no Centro Hospitalar Psiquiátrico de Barbacena (CHPB). Entre 2019 e 2025, 68 moradores do CHPB receberam alta para continuidade do cuidado em liberdade. Em 2022, foi registrado o maior número de altas do período, com 27 transferências para Serviços Residenciais Terapêuticos nos municípios de Antônio Carlos, Carandaí e Ibertioga.
Ao longo desse período, o Estado investiu mais de R$ 718 milhões em ações de saúde mental em Minas Gerais, sendo R$ 100 milhões somente em 2025. Atualmente, Minas Gerais conta com 453 Centros de Atenção Psicossocial (CAPS), dos quais 65 são voltados exclusivamente ao atendimento de crianças e adolescentes.
A assistência psiquiátrica no CHPB segue funcionando normalmente, dentro dos protocolos e diretrizes do Sistema Único de Saúde (SUS).























