O recente episódio envolvendo a Venezuela revela uma mudança de estilo no comportamento das potências globais, mais do que uma ruptura com a ordem internacional estabelecida após a Segunda Guerra Mundial. A força já esteve presente, mas agora vemos um abandono do disfarce, onde o que antes exigia rituais diplomáticos e justificativas se apresenta de forma crua, sem pudores: é o interesse nacional que prevalece.
A discussão inicial sobre o sequestro de Nicolás Maduro pelos Estados Unidos desvia o foco principal. A questão não reside na troca da diplomacia pela brutalidade, mas na transição da hipocrisia para o cinismo. As grandes potências continuam os seus jogos de poder, mas sem a pretensão de manter as aparências de civilidade.
A nova hierarquia global
O sistema que emergiu é caracterizado por uma hierarquia explícita, onde os Estados militarmente dominantes operam de forma unilateral, enquanto país mais vulneráveis se tornam alvos de arbítrio e pilhagem. Na interseção, existem nações que ainda se esforçam para participar do antigo jogo diplomático, pois não possuem o poder necessário para agir diferentemente.
Líderes como Donald Trump não apenas reconhecem essa realidade, mas a reconfiguram à sua imagem: mais crua, mais direta e com menos vergonha.
Quando a lei é abandonada
Em um nível de diplomacia, as interações entre Estados soberanos não contam com a segurança que uma corporação policial ofereceria; restam apenas a diplomacia ou a guerra. A recente incursão armada, apresentada como uma ‘ação policial’ pelo governo Trump, visava contornar as limitações legais dos atos de guerra.
Essa estratégia demonstra uma abordagem legal, não moral, conectando-se com um clima político que alimenta a extrema direita: a sensação de uma sociedade em declínio, instituições falidas e uma economia excludente. O medo do futuro é carregado em direção a inimigos tangíveis, onde a força se transforma em um atalho. No cenário atual, as antigas narrativas liberais perdem sua eficácia, e o nativismo e o fechamento tornam-se opções viáveis sob o pretexto de autopreservação.
Trump intuitivamente captou essa mudança: parte do eleitorado anseia por uma liderança que exiba força e franqueza brutal, não na forma de um xerife cumpridor da lei, mas sim como um predador aberto e claro.
























