A declaração de um representante da Vale, durante a reunião do Conselho Municipal de Meio Ambiente (Codema) na última segunda-feira (12), trouxe à tona uma questão alarmante: “A gente continua com os estudos de continuidade das nossas operações. Mas, para que a gente continue operando, esse projeto precisa ser aprovado”. Essa mensagem, que deveria ser uma informação simples, soa como uma verdadeira ameaça.
A Vale, uma multinacional que construiu seu império com os recursos das montanhas de Itabira, parece vincular sua continuada presença no município à autorização de mais um projeto de ampliação, que inclui o aumento das cavas e a instalação de pilhas de rejeitos e estéril. Essa postura levanta preocupações sobre a falta de diálogo transparente e de compromissos claros com as comunidades locais, além de ignorar os alertas ambientais e sociais.
A postura da empresa durante a reunião foi emblemática. Com um público presente que elevou questões legítimas sobre os impactos da proposta, a duração real da presença da Vale na cidade e os investimentos que deixará como legado, a empresa optou por desviar de respostas objetivas e insistiu em sua autopromoção, tornando a conversa mais parecida com uma campanha publicitária do que com uma discussão sincera.
Os impactos da ampliação foram reconhecidos no próprio relatório da empresa, citando danos como a perda de cobertura vegetal, fragmentação de habitats, supressão de espécies protegidas, degradação da paisagem e interferências nos cursos d’água da região Cubango. O aumento da exploração novamente comprometerá o lençol freático de Itabira, transferindo esses riscos para a população local.
A discussão em torno do projeto não visa à sua negação total, mas à cobrança de responsabilidade por parte da Vale. A comunidade reconhece a importância histórica da empresa, mas demanda que contrapartidas efetivas sejam apresentadas. Entre as melhorias requisitadas estão obras estruturantes, apoio à diversificação econômica e investimentos duradouros que não se dissipem assim que a última carga de minério for exportada.
É surpreendente que uma empresa que já anunciou sua intenção de deixar a cidade não se preocupe em deixar um legado significativo. As demandas dos cidadãos se acumulam há anos: melhorias na saúde pública, ampliação da universidade federal, duplicação das rodovias MGs 129 e 434, construção de uma nova unidade penitenciária, criação de um novo distrito industrial e a instalação de um porto seco. Todas são oportunidades concretas para transformar vidas, mas a Vale parece ignorá-las.
Ao transformar uma audiência pública em uma oportunidade publicitária, e ao querer condicionar sua permanência a aprovações de projetos, a Vale demonstra que não tem interesse em negociação, mas sim em impor sua vontade, mantendo Itabira refém de sua lógica extrativista até o último grama de minério e cerceando o direito da cidade de planejar um futuro além da mineração.
Essa é, afinal, a verdadeira herança que a Vale quer deixar?























