Terça, 23 de junho de 2026

Alta nos casos de violência contra mulheres reforça debate sobre prevenção, autoconfiança e defesa pessoal

Somente em 2025, foram registrados mais de 157 mil casos de violência doméstica e familiar contra mulheres
Mais mulheres buscam o jiu-jitsu para além da atividade física – Foto: Divulgação

O aumento dos casos de violência contra a mulher no Brasil tem reforçado a necessidade de ampliar o debate sobre prevenção, acolhimento e fortalecimento feminino. Dados do Ministério das Mulheres apontam crescimento das denúncias registradas pelo Ligue 180 no primeiro trimestre de 2026, evidenciando que a violência doméstica e de gênero permanece como um dos principais desafios sociais do país.

Em Minas Gerais, os números também chamam atenção. Somente em 2025, foram registrados mais de 157 mil casos de violência doméstica e familiar contra mulheres, além de centenas de ocorrências relacionadas a agressões físicas, psicológicas, patrimoniais e sexuais.

Para especialistas, além da atuação das forças de segurança, da rede de proteção e dos mecanismos de denúncia, é importante fortalecer ações que contribuam para a autonomia, a autoconfiança e a capacidade de reconhecer situações de risco.

A violência nem sempre deixa marcas visíveis

Advogada e praticante de jiu-jitsu há mais de uma década, Thaís Canedo afirma que muitas mulheres ainda associam a violência apenas à agressão física, ignorando sinais que surgem muito antes dos episódios mais graves.

“Existem vários tipos de relacionamento abusivo. Muitas vezes tudo começa de forma muito sutil, principalmente na violência psicológica. Quando a mulher percebe, já está envolvida em uma situação mais grave”, explica.

Segundo ela, comportamentos de controle, manipulação, isolamento social, humilhação e desvalorização da autoestima costumam estar entre os primeiros sinais.

“A mulher precisa estar atenta a qualquer comportamento que tente limitar sua liberdade ou diminuir sua capacidade de decisão. São atitudes que podem parecer pequenas no início, mas que frequentemente evoluem para situações mais graves”.

Mais mulheres buscam o jiu-jitsu para além da atividade física

Em meio a esse cenário, modalidades ligadas à defesa pessoal têm atraído um número crescente de mulheres interessadas não apenas em condicionamento físico, mas também em autoconfiança, equilíbrio emocional e sensação de segurança.

Foi justamente essa busca que levou Thaís a retomar os treinos em 2025, após anos afastada da modalidade.

“Eu moro sozinha com minhas filhas e a questão da defesa pessoal teve peso na minha decisão de voltar. Mas o jiu-jitsu acabou me entregando muito mais do que isso. Ele me ensinou a lidar com situações de pressão, controlar o emocional e confiar mais em mim mesma”, relata.

Segundo ela, a prática contribui para o desenvolvimento de habilidades que ultrapassam o ambiente esportivo.

“Quando estou no tatame, consigo esquecer completamente os problemas do dia. Funciona quase como uma terapia. Além da questão física, existe um ganho muito grande de autoestima, disciplina e confiança”.

Defesa pessoal começa antes do confronto

Professor de jiu-jitsu e responsável pela Team Antunes, em Coronel Fabriciano, Leonardo Antunes acompanha diariamente mulheres que chegam ao esporte em busca de diferentes objetivos, incluindo bem-estar, qualidade de vida e desenvolvimento pessoal.

Para ele, a defesa pessoal não deve ser entendida apenas como reação física a uma agressão.

“Muitas pessoas associam defesa pessoal apenas ao confronto, mas ela começa muito antes disso. Ela está relacionada à percepção de risco, à postura, à confiança e à capacidade de tomar decisões sob pressão. O treinamento ajuda a desenvolver essas competências de forma gradual e responsável”.

Segundo Leonardo, um dos principais ganhos observados entre as alunas é o fortalecimento da autoconfiança.

“Nenhuma modalidade esportiva substitui a rede de proteção à mulher, os mecanismos legais ou a denúncia. Mas percebemos que muitas mulheres desenvolvem algo extremamente importante durante os treinamentos: confiança. Elas passam a acreditar mais na própria capacidade, aprendem a manter a calma em situações difíceis e a se posicionar com mais segurança em diferentes aspectos da vida”.

Informação, apoio e denúncia continuam sendo fundamentais

Apesar dos benefícios proporcionados pela prática esportiva, especialistas reforçam que o combate à violência contra a mulher depende de uma atuação conjunta da sociedade, do poder público e dos mecanismos de proteção já existentes.

Para Thaís, reconhecer os sinais precocemente continua sendo uma das medidas mais importantes.

“Se a violência já está acontecendo, a mulher deve procurar ajuda e denunciar. Hoje existem canais de atendimento, medidas protetivas e uma legislação preparada para acolher essas situações. O fundamental é não normalizar comportamentos abusivos.”

O Ligue 180 funciona gratuitamente em todo o país, 24 horas por dia, recebendo denúncias e orientando mulheres em situação de violência.

Um debate que vai além das estatísticas

Embora os números evidenciem a dimensão do problema, especialistas destacam que o enfrentamento à violência contra a mulher passa também pela construção de ambientes que promovam respeito, autonomia e fortalecimento emocional.

Nesse contexto, iniciativas ligadas ao esporte, à educação e ao desenvolvimento pessoal surgem como ferramentas complementares para ampliar a conscientização e contribuir para que mais mulheres se sintam preparadas para reconhecer situações abusivas, buscar ajuda e exercer plenamente seus direitos.

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