O avanço da democracia no Brasil durante o Século 20 apresentou um cenário complexo, muito diferente de um desfile de carnaval perfeitamente ensaiado.
Durante esse período, carnavalescos e compositores enfrentaram a vigilância, a censura e até a prisão por parte das forças repressivas que atuaram, mesmo após a volta dos civis ao poder, refletindo a dualidade da cultura do carnaval, que é marcada pelo racismo que ainda persiste no Brasil.
Essas questões são abordadas na pesquisa do sociólogo Rodrigo Antonio Reduzino, que defende sua tese Enredos da Liberdade: o grito das Escolas de Samba pela Democracia na Unicamp. Seu trabalho analisa os enredos das escolas do Grupo Especial do Rio de Janeiro na década de 1980, um período crucial que marca o fim da ditadura militar (1964-1985).
A pesquisa acompanha a evolução dos sambas desde a campanha das Diretas Já (1984) até a eleição de Fernando Collor (1989), oferecendo uma perspectiva crítica sobre como o samba-enredo pode ser um poderoso enunciado político.
Além de sua atuação acadêmica, Reduzino é ativo na Secretaria de Educação do Estado do Rio e no Departamento Cultural da Mangueira. Em uma entrevista à Agência Brasil, ele reflete sobre a invisibilidade do samba durante os anos de repressão e a importância desse gênero musical como resistência.
Apontamentos da Entrevista
Agência Brasil: Por que se fala pouco do papel das escolas de samba na resistência à ditadura militar?
Rodrigo Reduzino: Precisamos refletir sobre o porquê de determinados discursos serem guardados por setores específicos. O sambista, por meio do samba-enredo, convoca a sociedade a refletir sobre sua condição. Durante os anos 1980, os sambas não eram apenas desfiles, mas um processo de criação que envolvia a comunidade inteira.
A repressão e o carnaval
Agência Brasil: Como a repressão afeta as camadas populares?
Rodrigo Reduzino: O Estado, em suas ações, demonstra uma violência latente, principalmente contra a população negra e periférica. O samba é uma expressão cultural negra dentro de uma sociedade que perpetua o racismo.
Críticas ao mito da democracia racial
Agência Brasil: O samba reforça essa ideia de democracia racial?
Rodrigo Reduzino: Embora o samba tenha sido abraçado como patrimônio cultural brasileiro, essa narrativa não considera as profundas desigualdades raciais que existem. Quando se fala de democracia racial, considera-se que os problemas sociais são meros detalhes que não precisam ser abordados.

























