Nana Caymmi (foto/reprodução internet) possuía um abismo. Um abismo que se revelava no som e no silêncio, entre lágrimas e canto. Sua voz não apenas interpretava; ela confessava. A música parecia mais uma memória, rica em mágoa e sal, ressoando em noites em que o tempo se detinha para ouvi-la sofrer.
Diferente daquelas que cantam apenas para entreter, Nana cantava para existir, e, ao existir, provocava dor, como toda verdadeira beleza. Mergulhando nos sambas-canção, atravessava-os como quem pisa em cacos de lembranças, com total segurança.
Ela deu vida à poesia muda de Dolores Duran, encarnou lamentos nos versos de Milton e reinterpretou o pai, Dorival, com a naturalidade de quem traz o mar nas veias. Poucas, senão nenhuma voz, conseguiram ser tão ternas e dilaceradas ao mesmo tempo.
Nana, na constelação da música brasileira, não buscava brilhar como uma estrela, mas existiu de tal forma que se tornava impossível silenciá-la. Sua presença ecoa nos acordes suspensos de “Resposta ao tempo”, nas pausas ricas de significado de “Cais”, e no adeus suave de “Por causa de você”.
Ela é uma cantora de todos e de ninguém, a guardiã de amores antigos e das dores que permanecem sem nome. Nana vive: feita de voz, silêncio e eternidade.
























