Segunda, 20 de abril de 2026

Dona Rosinha celebra lançamento de ‘Memórias do Meu Quilombo’ durante Flitabira

Dona Rosinha celebra lançamento de 'Memórias do Meu Quilombo' durante Flitabira
Foto: Ramon Agostinho/DeFato Online.

O lançamento do livro “Memórias do Meu Quilombo”, de Rosemary Alvares de Souza, também conhecida como Dona Rosinha, foi um dos destaques da quinta edição do Festival Literário Internacional de Itabira (Flitabira). O evento ocorreu na noite da última quinta-feira (30), na Fundação Cultural Carlos Drummond de Andrade, e atraiu um público envolvido e emocionado diante de uma obra que emerge do cotidiano e das experiências da autora, uma reconhecida líder comunitária.

A mesa de lançamento contou com a presença da escritora Conceição Evaristo, do secretário de Formação, Livro e Leitura do Ministério da Cultura (MinC), Fabiano Piúba, e foi mediada pela jornalista e escritora Luana Tolentino. As discussões abordaram a idealização do livro e o processo de curadoria dos contos que Dona Rosinha, que escreve diariamente desde a adolescência, compilou ao longo dos anos.

Publicada pela Editora Pallas, a obra reúne 16 narrativas inspiradas na trajetória de Dona Rosinha e na vida comunitária do Quilombo Morro Santo Antônio, em Itabira. As histórias exploram temas como infância, pobreza, maternidade, religiosidade, ancestralidade e as relações de solidariedade, além de refletirem o processo histórico de resistência e a transmissão de saberes característicos das comunidades quilombolas.

A relação de Dona Rosinha com a escrita começou na adolescência, quando ela desenvolveu o hábito de registrar, em cadernos e diários, experiências e sentimentos do seu cotidiano. “Tudo que eu vivia, eu anotava. Era uma forma de guardar o que não queria esquecer”, relatou.

“Eu não tinha noção da grandiosidade do que estava fazendo. Escrevia pensando que um dia, quando eu morresse, alguém leria e saberia das histórias. Hoje, ver tudo isso acontecendo me assusta e me emociona. É como ver o resultado de um sonho construído ao longo da vida, um trabalho simples, feito à mão, que agora ganha um significado que eu nunca imaginei”, compartilhou a autora.

Neste lançamento, Conceição Evaristo e Fabiano Piúba se envolveram em uma roda de conversa com os moradores da comunidade. Durante o encontro, ao ler uma carta que havia escrito para seu filho quando ele ainda era criança, Dona Rosinha despertou o interesse de Evaristo, que viu ali um material literário rico. O encontro resultou em um projeto editorial que uniu Conceição, Piúba e a equipe da Editora Pallas. “Ela não apenas escreve suas memórias, mas escreve uma história coletiva. Seu texto carrega um ‘eu’ que é também um ‘nós’”, declarou Evaristo.

“A escrita e a oralidade não se conflitam, elas se completam. Quando uma contadora de histórias como Dona Rosinha decide registrar suas narrativas, o texto ganha dupla validade, a da palavra falada e a da palavra escrita. Valorizar uma escrita que nasce da experiência popular é também reconhecer que a história brasileira é múltipla e que todas as vozes têm o direito de ocupar o texto”, comentou Evaristo, que também prefaciou o livro.

De acordo com Fabiano Piúba, a publicação é um símbolo do resultado das políticas culturais de democratização da leitura. “O livro de Dona Rosinha representa o direito à palavra. É a comprovação de que a literatura pode nascer em qualquer território, desde que se garantam as condições para que essas vozes se tornem visíveis”, ressaltou o secretário, sublinhando a importância do Ministério da Cultura na formação de leitores e na valorização da literatura regional.

Em sua fala, Dona Rosinha expressou que o lançamento superou suas expectativas. “Nunca imaginei que minhas anotações se tornariam um livro. Eu reescrevi tudo à mão, porque gosto do papel, gosto do lápis. Ver essas palavras transformadas em livro é uma conquista para mim e para o quilombo”, afirmou, revelando que alguns dos textos foram escritos há mais de quarenta anos.

O Flitabira, nesta edição, destacou a presença de autores que representam diversas expressões da literatura brasileira contemporânea, reafirmando a tradição itabirana como um território literário, herdando o legado de Carlos Drummond de Andrade.

Para além do impacto simbólico, “Memórias do Meu Quilombo” posiciona a literatura como um espaço de memória e cidadania. A obra já está disponível na livraria do Flitabira até o próximo domingo (02).

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