Sábado, 06 de dezembro de 2025

Cineastas negras transformam o cenário audiovisual brasileiro

Cineastas negras transformam o cenário audiovisual brasileiro
Foto: Borboleta Filmes/Divulgação

Por décadas, o cinema brasileiro deixou de lado as vozes que mais precisavam ser vistas e ouvidas. Entre desafios como candidatos apagados da memória histórica, dificuldades de financiamento e falta de representação em festivais, duas cineastas negras, Edileuza Penha de Souza e Camila de Moraes, têm reinventado estruturas e criado redes fundamentais para que o audiovisual negro florescesse. Suas trajetórias servem como pilares de uma transformação que não pode mais ser ignorada.

Edileuza Penha de Souza, cineasta, professora e pesquisadora, é autora de obras de referência que discutem negritude, audiovisual e educação. Sua série de publicações, Negritude, Cinema e Educação, conecta estética, política e formação crítica.

A mudança no cenário começou em 2014 com o idealizador da Mostra Adélia Sampaio, apoiada por editais da Universidade de Brasília e políticas de incentivo à cultura.

“Propomos, ainda em 2014, o primeiro Encontro Nacional de Cineastas Negras, e dentro dele, a primeira mostra competitiva de cinema negro Adélia Sampaio. Criamos essa mostra para reparar um apagamento histórico.”

Seu doutorado, iniciado em 2010, foi quando Edileuza percebeu a ausência de protagonistas negras e diretoras no cinema. A pesquisa a levou a redescobrir Adélia Sampaio, a primeira cineasta negra do Brasil, que havia sido praticamente esquecida em estudos acadêmicos e narrativas cinematográficas.

“O apagamento em torno desse corpo negro feminino foi extremamente cruel. Minha pesquisa ajudou a trazer Adélia de volta ao reconhecimento que merece.”

Edileuza enfatiza como formação, pesquisa e realização estão interligadas em sua trajetória, ressaltando a luta por equipamentos e estrutura no audiovisual. A cineasta destaca as desigualdades da indústria, já que mesmo com a visibilidade, as cineastas negras ainda enfrentam barreiras significativas.

Evanecimento de financiamento e suporte são evidentes ao afirmar que até 2016 a Ancine não havia financiado nenhum longa dirigido por uma mulher negra: “É urgente falar de reparação”.

Enquanto isso, Camila de Moraes, também cineasta, usou sua voz e experiência para construir filmes que tratam de temas como violências do Estado e maternidades negras, sempre buscando um espaço no cinema que muitas vezes aparece repleto de obstáculos.

“A produção de O Caso do Homem Errado foi independente e desafiadora. Tive que criar a Borboletas Filmes para garantir a exibição do meu trabalho.”

Camila compartilha que, apesar de seus esforços e discos lançados, seu trabalho ainda não atinge o status necessário dentro do mercado, um retrato da luta contra o apagamento que acompanha cineastas negras ao longo da história.

Apoiadas por suas trajetórias, ambas acreditam que o cinema deve ser visto como um direito e uma forma de reparação e que novas gerações devem ter caminhos mais abertos e menos solitários na indústria.

“Quando mulheres negras ascendem, a carreira é de muita solidão. Por isso, o encontro é tão importante”, resume Edileuza, enquanto Camila complementa: “Se o caminho convencional não nos acolhe, criamos outro, mas precisamos de robustez pública para mantê-lo.”

Segundo a Ancine, apenas 2% dos diretores de filmes comerciais no Brasil são negros, e entre roteiristas, o índice é de apenas 4%.

Com uma história marcada por desafios, o futuro do cinema negro brasileiro já começou, evidenciado pela força coletiva de Edileuza Penha de Souza e Camila de Moraes.

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