No município de Itabira, vídeos que mostram supostas aparições de onças-pintadas (Panthera onca) em áreas rurais circulam frequentemente nas redes sociais. Contudo, essas imagens—muitas vezes desfocadas ou gravadas a distância—podem alimentar mitos e gerar medo entre os residentes.
De acordo com o biólogo e educador ambiental Samuel Iginio, não há comprovação científica ou documental da presença atual de onças-pintadas na região. Ele explica que os vídeos geralmente retratam felinos menores, como jaguatiricas ou gatos-maracajás, cujas pelagens podem ser confundidas. “Alguns felinos possuem manchas arredondadas na pelagem, chamadas de roseta. Na onça-pintada, essas rosetas têm uma mancha no centro, enquanto na jaguatirica elas são mais alongadas. O gato-maracajá tem manchas quase completamente preenchidas”, esclarece.
A presença da onça-pintada no Brasil foi mais ampla, mas a espécie sofreu extinção local em várias regiões devido à degradação ambiental e à caça. Samuel reforça que não encontrou evidências de sua presença em Itabira. “A extinção local significa que uma espécie que existia em uma área não está mais presente. A população de onças-pintadas teve uma distribuição muito maior Brasil afora”, comenta.
Então, se não é a onça-pintada, quem são os animais que habitam as matas de Itabira? O biólogo compartilha um levantamento sobre os principais predadores carnívoros da área. Um deles é a suçuarana (Puma concolor), que, apesar de discreta, é o segundo maior felino das Américas e pode ser vista em regiões isoladas da cidade. Embora haja relatos de ataques a gado, a suçuarana não representa ameaça direta aos humanos.
Outro morador interessante é o lobo-guará (Chrysocyon brachyurus). Com suas pernas longas e pelagem alaranjada, este animal tímido e solitário também enfrenta superstições cruéis que o colocam em risco. “Existem crenças que sugerem que arrancar os olhos do lobo-guará traz sorte, prática que é crime ambiental e um atentado ao bem-estar da espécie”, adverte Samuel.
Menos visível, o jacaré-de-papo-amarelo (Caiman latirostris) é outro predador que vive preferencialmente em corpos d’água e evita confrontos. A fauna local também abriga espécies ameaçadas, como a raposa-do-campo (Lycalopex vetulus) e a lontra (Lontra longicaudis), que resistem na região apesar da discrição. Outros habitantes incluem tamanduás, gaviões, gatos-mouriscos e abelhas nativas, essenciais para a polinização.
Essas espécies sobrevivem em parte graças às Unidades de Conservação (UCs), que formam um mosaico ecológico na região, incluindo parques como o Parque Natural Municipal do Intelecto e o Parque Estadual Mata do Limoeiro. Estes espaços têm Planos de Manejo que orientam ações de preservação e Estudos de Impacto Ambiental para avaliar riscos.
Ao encontrar um animal silvestre, é crucial manter a calma e evitar qualquer interação. Samuel alerta que esses animais geralmente fogem ao notar a presença humana, mas podem reagir se se sentirem ameaçados. “É melhor manter distância e não incentivar instintos de defesa”, aconselha. Ele finaliza ressaltando os perigos de compartilhar informações falsas sobre a fauna local, que podem gerar pânico e perseguições injustificadas aos animais.
Saiba mais: antes de compartilhar mensagens alarmistas, consulte especialistas ou fontes oficiais.
























