A imagem de 2008 do então governador de São Paulo, José Serra (PSDB), ‘vacinando’ o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) ficou marcada na memória da arquiteta Paula Falcão. Hoje, aos 30 anos, ela relembra essa fotografia que capturou a atenção dos eleitores, destacando um tom descontraído dos adversários políticos. Porém, essa cena parece distante do cenário atual.
“Antes havia uma certa cordialidade entre os adversários políticos. Tinha um respeito, mesmo que não fosse genuíno. Hoje, a política se tornou um campo de ataque constante. O foco parece estar mais em derrotar o adversário do que em construir algo positivo para a sociedade”, disse Paula, que se sente desanimada com a disputa presidencial deste ano.
Esse sentimento é compartilhado por uma parcela significativa do eleitorado. Segundo a pesquisa Travessia, realizada para o Estadão, quase quatro em cada dez eleitores expressaram sentimentos de descrença, revolta ou desânimo em relação à disputa. Em contrapartida, 42,5% relataram sentir esperança com a eleição, enquanto 5,1% se sentiram alegres, 12,6% disseram que não sentem nada e 3% não souberam ou não quiseram responder.
Sabendo que, ao votar em Lula em 2022, a arquiteta tinha esperanças de melhorias. Quatro anos depois, percebes poucas mudanças e enfrenta a sensação de múltiplas crises simultâneas. Paula afirma que repetirá seu voto no petista, não com esperança, mas por considerar a falta de alternativas viáveis. “É um sentimento de desânimo, de ‘tem que votar para não piorar’. Não espero melhorias”, conclui.
Esse voto motivado pela rejeição inspira quase metade dos brasileiros. Cerca de 46% afirmarão que votarão em alguém apenas para impedir que outro vença. Esse percentual é ainda maior entre eleitores com renda de até dois salários mínimos (49,8%) e entre moradores da região Norte (51,2%). Ao mesmo tempo, 49,4% do eleitorado geral afirmam que a escolha será baseada nas propostas ou na admiração pelo candidato.
O nutricionista Joás Garcia, de 22 anos, relata que tem pouca identificação com o plano de governo de Flávio Bolsonaro (PL-RJ). Sua escolha é clara: o antipetismo. “Meu voto no Flávio é 70% anti-PT. É um voto útil”, diz ele, enfatizando que a sua opção não reflete seus princípios. “Me sinto preso a um projeto de poder ultrapassado e abusivo do PT”.
Garcia, que viveu sob governos petistas a maior parte da sua vida, acredita que o Brasil regrediu ou estagnou em muitos índices consideráveis. “No mandato atual, 2023 a 2026, minha vida e a da minha família foram impactadas pelo aumento de impostos, cuja justificativa não consigo observar em meu cotidiano”, critica.
O nutricionista expõe suas preocupações quanto à possibilidade de Lula indicar mais ministros para o Supremo Tribunal Federal (STF). Para ele, isso selaria um projeto de poder arquitetado pelo PT.
O cientista político Renato Dorgan, CEO do Travessia Pesquisas, alerta que existe uma crescente descrença nas instituições e nos políticos brasileira. “O escândalo do Banco Master evidenciou uma corrupção desenfreada que sempre esteve presente”, explica. Ele também destaca o desgaste causado por promessas não cumpridas que se repetem a cada eleição.
Apesar da alta porcentagem de esperança, Dorgan acredita que essa percepção não se relaciona diretamente com a política. “O brasileiro mantém um espírito otimista e alegre, mas a esperança na política é distinta”, afirma.
A desmobilização entre os eleitores apresenta grandes desafios para as campanhas, que alegam dificuldades para mobilizar apoiadores. Dorgan acredita que o desânimo também é resultado de estratégias equivocadas, que priorizam debates online em detrimento de propostas. “O povo ainda quer ouvir propostas, mesmo não acreditando na repetição”.
A pesquisa revela que 78,5% dos eleitores afirmam que vão votar “com certeza”, enquanto 20,2% ainda não estão certos sobre sua ida às urnas. A disposição para votar é menor entre eleitores de baixa renda da Região Sudeste, onde somente 64,9% afirmam que irão votar.
Os desafios crescem entre os jovens eleitores. O estudante de Psicologia e entregador de aplicativo Vitor Sakugawa, de 23 anos, expressa seu desinteresse na política, dizendo que mesmo que tenha tempo, pode votar em branco ou nulo. Ele acredita que nenhuma mudança significativa será promovida na política atual.
“Nem Jesus consegue”, diz Sakugawa, que critica a corrupção e a falta de compromisso dos políticos com seus deveres. O desinteresse político se reflete nos dados da pesquisa Travessia: 33,6% acreditam que “não importa quem se eleja, os políticos são todos iguais e nada muda”.
Por fim, a pesquisa Travessia realizou mil entrevistas telefônicas com eleitores de todo o Brasil entre 23 e 25 de setembro, com margem de erro de 3,1 pontos percentuais e nível de confiança de 95%.
ESTADÃO CONTEÚDO: POR BIANCA GOMES























