Domingo, 27 de setembro de 2026

Impactos das apostas online: Como as dívidas têm afetado brasileiros

A recente proibição das apostas online no Brasil trouxe à tona os graves problemas causados por este vício. Histórias de perdas financeiras e impacto na saúde mental estão se tornando comuns entre os brasileiros.

Impactos das apostas online: Como as dívidas têm afetado brasileiros
© Tomaz Silva/Agência Brasil

“Um grande alívio.” Foi assim que Kaio*, de 42 anos, definiu o sentimento ao ouvir a notícia, na última sexta (25), de que as operações das empresas de apostas on-line, as bets, foram proibidas no Brasil. Ele diz que tenta recomeçar a vida após perder o carro, a casa e o emprego devido às dívidas com jogos.

Atualmente, Kaio mora sozinho em um dormitório no interior de Goiás. No local, ele se abriga, todas as noites, no chão, temendo pela segurança, em função de dívidas contraídas com agiotas, preferindo se afastar da família. Ele reconhece que, nos últimos seis anos, o vício em jogos transformou sua vida.

Em busca de ajuda, ele frequentou um Centro de Atenção Psicossocial (Caps), onde começou a participar de grupos terapêuticos e consultas médicas. Atualmente, ele toma três medicamentos por dia.

Desde os primeiros alertas sobre o empobrecimento da população e o aumento do vício nas apostas, a Agência Brasil tem produzido reportagens sobre o tema. Confira todas as matérias publicadas aqui.

Proibição da atividade

A Medida Provisória 1394, que proibiu as bets no Brasil, foi assinada pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva na última sexta (25), revogando a Lei 13.756, aprovada em dezembro de 2018 durante o governo de Michel Temer.

Apesar da aprovação em 2018, as bets estiveram sem regulamentação até dezembro de 2023, funcionando sob falta de regras por pelo menos cinco anos. Foi somente após a regulamentação que surgiram exigências, como avisos aos jogadores sobre os riscos das apostas.

Vulnerabilidades e publicidade enganosa

A psiquiatra Katia Branco, supervisora do Grupo Pro-Amiti (que trata o transtorno de controle de impulso) do Hospital das Clínicas de São Paulo, enfatiza que pessoas em situação de vulnerabilidade são o grupo mais suscetível ao vício em jogos, afetadas por desinformação e publicidade enganosa.

Segundo ela, anúncios promoviam uma falsa ideia de que o jogo poderia complementar a renda, levando indivíduos a acreditar que poderiam obter retornos rápidos.

Perdas financeiras

No último ano, as famílias brasileiras perderam R$ 62,5 bilhões para as apostas, que é a diferença entre o total apostado e os prêmios devolvidos. Essa quantia representa em média R$ 4,7 bilhões por mês, considerável em relação à Renda Nacional Disponível Bruta das Famílias.

Quebra de regras

Embora a regulamentação exigisse que as empresas bloqueassem usuários compulsivos, na prática, isso nunca ocorreu. As plataformas continuaram a enviar bônus e anúncios incessantemente aos jogadores.

Dados alarmantes indicam que um em cada cinco alunos do ensino fundamental e médio já realizou apostas online, evidenciando que as práticas de aposta começaram a afetar até mesmo adolescentes.

Riscos de saúde e suicídio

Os profissionais de saúde notaram comportamentos preocupantes entre apostadores de todas as idades, incluindo sinais de desespero e aumento do uso de álcool. Katia Branco destaca que chamadas relacionadas a suicídio devem ser consideradas graves e exigir atenção.

O neurocirurgião Orlando Maia afirma que muitos não reconhecem sua dependência e precisam de apoio familiar para buscar ajuda.

Com as apostas online facilmente acessíveis, as autoridades estão tomando medidas para aumentar a prevenção e oferecer suporte a apostadores em dificuldades.

Com a proibição das bets no Brasil, o Ministério da Saúde anunciará iniciativas para contatar e ajudar apostadores contumazes.

*Nomes fictícios a pedido dos entrevistados

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